Nova exigência amplia a responsabilidade das empresas sobre os riscos psicossociais e coloca a saúde emocional dos colaboradores no centro da gestão ocupacional
A relação entre trabalho e saúde mental deixou de ser um assunto restrito ao indivíduo e passou a ocupar um espaço formal na gestão das empresas.
Com a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), as organizações precisam incorporar os chamados riscos psicossociais ao Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO). Na prática, isso significa identificar, avaliar e adotar medidas para prevenir fatores relacionados ao ambiente de trabalho que possam contribuir para problemas como burnout, estresse crônico, ansiedade e situações de assédio moral.
A mudança coloca um novo desafio diante das empresas: não basta olhar apenas para riscos físicos e operacionais. A forma como o trabalho é organizado, as cobranças, as relações profissionais e as condições oferecidas aos funcionários também precisam entrar no radar da gestão.
Uma crise que afeta pessoas — e também empresas
A deterioração da saúde mental não acontece de forma isolada. No Brasil, o problema ganhou proporções relevantes e já produz impactos que ultrapassam a esfera pessoal.
Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) colocam o país entre aqueles com maior prevalência de ansiedade no mundo e apontam uma posição de destaque também nos casos de depressão.
O reflexo aparece, inclusive, nos afastamentos profissionais. Todos os anos, o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) registra dezenas de milhares de concessões de benefícios relacionados a transtornos mentais e comportamentais.
Para as empresas, as consequências podem aparecer em diferentes pontos da operação.
A sobrecarga emocional pode contribuir para aumento do absenteísmo, maior rotatividade, queda de produtividade, falhas nas atividades e crescimento dos custos relacionados a desligamentos e processos trabalhistas.
Ou seja: negligenciar a saúde mental não representa apenas um risco para o bem-estar dos colaboradores. Também pode gerar impactos financeiros e operacionais para a organização.
A contabilidade ganha um papel ainda mais estratégico
Com as novas exigências, a atuação da área contábil passa a ultrapassar as tradicionais rotinas fiscais e financeiras.
A contabilidade pode exercer uma função importante na prevenção de passivos trabalhistas e na avaliação dos possíveis impactos financeiros associados a indenizações, multas decorrentes de fiscalizações trabalhistas e alterações no Fator Acidentário de Prevenção (FAP).
Outro ponto de atenção está na integração das informações de saúde e segurança do trabalho com as obrigações do eSocial.
Ao orientar seus clientes sobre o cumprimento das exigências relacionadas à SST e acompanhar os reflexos das licenças médicas na folha de pagamento, o profissional da contabilidade pode se tornar um parceiro importante na construção de uma gestão mais segura e sustentável.
Essa integração também exige proximidade entre diferentes áreas da empresa. Departamento pessoal, contabilidade, gestores e profissionais responsáveis pela segurança do trabalho precisam atuar de maneira coordenada.
O trabalho do futuro exige outra forma de gestão
O modelo de gestão baseado exclusivamente em pressão, medo e excesso de cobrança encontra cada vez mais resistência no mercado.
Profissionais das novas gerações têm considerado fatores como qualidade de vida e segurança psicológica na escolha e na permanência em uma empresa.
Nesse cenário, adequar-se às exigências da NR-1 não deve ser visto apenas como uma obrigação para evitar penalidades.
Empresas que estruturam ações preventivas também podem criar ambientes mais favoráveis à retenção de profissionais, à inovação e à construção de uma reputação sólida no mercado.
A mudança, portanto, não acontece apenas no departamento de Recursos Humanos. Ela envolve a cultura e a maneira como a organização administra pessoas, processos e riscos.
O que sua empresa precisa fazer?
A adequação exige mais do que uma mudança documental. É necessário transformar as exigências em ações concretas dentro da rotina empresarial.
Confira alguns dos principais passos:
1. Aproximar Contabilidade e SST
O primeiro movimento é integrar o departamento pessoal, a assessoria contábil e os profissionais responsáveis pela segurança do trabalho.
Essa atuação conjunta permite incorporar a avaliação dos riscos psicossociais ao Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) e criar uma visão mais ampla sobre os fatores que podem afetar os trabalhadores.
2. Preparar os gestores
Os gestores estão na linha de frente das relações entre empresa e colaboradores. Por isso, precisam estar preparados para reconhecer situações que possam indicar problemas.
Treinamentos voltados para comunicação não violenta, escuta ativa e identificação precoce de sinais relacionados ao burnout podem fazer parte dessa preparação.
3. Criar um canal seguro de escuta
Também é importante oferecer aos colaboradores um espaço confiável para relatar situações de assédio, cobranças excessivas e outros problemas relacionados ao ambiente profissional.
Esse canal precisa garantir confidencialidade e, principalmente, ter um processo eficiente para receber, analisar e encaminhar as denúncias.
A hora de agir é agora
A saúde mental no ambiente corporativo deixou de ser uma questão que pode ser adiada.
A atualização da NR-1 coloca os riscos psicossociais dentro da gestão de riscos ocupacionais e exige que as empresas estejam preparadas para lidar com eles.
Por isso, o primeiro passo é olhar para dentro da própria organização: conversar com a equipe contábil, analisar os indicadores do departamento pessoal, observar os afastamentos e identificar possíveis pontos de atenção no ambiente de trabalho.
A adequação não precisa começar quando uma fiscalização aparecer ou quando o esgotamento da equipe já tiver provocado consequências.
Ela pode começar agora — com diagnóstico, integração entre áreas, capacitação dos gestores e criação de mecanismos seguros de escuta.
Cuidar da saúde mental dos colaboradores passa a ser, ao mesmo tempo, uma responsabilidade de gestão, uma questão de conformidade e uma decisão estratégica para o futuro da empresa.
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